Tibet e os encantos de uma cultura milenar

Por: Flávia Pires 2 abril, 2018

 

Conhecida como o ” teto do mundo”, o Tibet é um território disputado situado ao norte da cordilheira do Himalaia. Habitada pelos tibetanos e por outros grupos étnicos como os Montas e Lhobas, além de minorias de chineses Han e Hui, o Tibet é uma das regiões mais altas do mundo, com elevação média de 4.900 metros de altitude.

Durante toda sua história, o Tibet existiu como uma região composta por diversas áreas soberanas, como uma única entidade independente e como um Estado vassalo, sob soberania chinesa. Por diversas vezes, da década de 1640 até 1950, um governo nominalmente encabeçado por Dalai Lamas ( uma linhagem de líderes políticos espirituais) dominou sobre uma grande parte da região tibetana.  Durante boa parte deste período, a administração tibetana também esteve subordinada ao império chinês da Dinastia Qing.

Em 1913, o décimo terceiro Dalai Lama expulsou os representantes das tropas chinesas do território formado atualmente pela Região Autônoma do Tibet. Embora a expulsão tenha sido vista como uma afirmação da autonomia tibetana , esta independência proclamada do Tibet não foi aceita pelo governo da China e nem recebeu reconhecimento diplomático internacional.

Após uma invasão e uma batalha feroz em 1950, o Partido Comunista da China assumiu o controle da região de Khan, uma região que fica a oeste do rio Yangtzé. No ano seguinte, o décimo quarto Dalai Lama ( o atual ) e seu governo assinaram um acordo. Em 1959, juntamente com um grupo de líderes tibetanos e seus seguidores, o Dalai Lama fugiu para a Índia, onde instalou o Governo do tibet no Exílio em Dharamsala. Pequim e este governo no exílio discordam a respeito de quando o Tibet teria passado a fazer parte da China. Ainda existe muito debate sobre o que exatamente constitui o território do Tibet e de qual seria sua área e população.

 

 

Lhasa está a uma altitude de mais de 3.614 metros, lugar vibrante e fascinante, que tem sido o centro das atividades políticas, religiosas, econômicas e culturais do Tibet desde que o quinto Dalai Lama mudou a capital para Lhasa em 1642. Aqui, o budismo não é uma crença religiosa abstrata. Para muitos, é um modo de vida espiritual. Você respira isso na cidade o tempo inteiro.

 

 

O Palácio POTALA é o grande highlight da cidade, uma verdadeira obra de arte arquitetônica em cima da Montanha Vermelha, no centro de Lhasa, o maior edifício de todo o Tibet. O palácio foi construído em 637 pelo Rei Songtsen Gampo e era usado para refúgio de meditação. Por volta de 1645, durante o reinado do quinto Dalai Lama, o palácio foi restaurado e ampliado. Nos próximos 300 anos, serviu como residência de inverno de cada Dalai Lama e também como centro religioso e político do Tibet. Ele está erguido a 3.700 metros de altitude, parece uma fortaleza em sua aparência, rodeado por uma série de escadarias suaves ( ao todo são 2.00 degraus), quebradas por subidas e que conduzem ao topo. A parte central do palácio, chamado de “Palácio Encarnado” é onde ficam as principais galerias, capelas e santuários dos antigos Dalai Lamas. Nestas dependências, existem muitas pinturas ricamente decoradas, com trabalhos de joalherias, entalhes e muita riqueza. São cerca de 1.000 salas, 10.000 santuários e 200.000 imagens. Existem também outros dois palácios, o “Branco” e o “Vermelho”, uma mistura de arquitetura nepalesa e indiana. O local é de uma espiritualidade única, dá pra passar horas por lá admirando a beleza deste lugar sagrado e de peregrinação. É Patrimônio da UNESCO desde 1994.

 

 

O Mosteiro PABONGKA merece a visita na parte da tarde. A lenda local conta que ali foi uma casa de duas tartarugas, um macho e uma fêmea, que agora existem na forma de duas pedras de granito, neste mosteiro menos conhecido. Esculpido em uma rocha na entrada do tempo, está escrito o mantra “OM MANI PADME HUM”que significa: “Salve a jóia no lótus”, referindo-se à crença budista de que todas as pessoas possuem as qualidades necessárias para alcançar a iluminação espiritual.

Após uma caminhada de mais ou menos meia hora, chegamos ao convento CHUPSANG, onde ali vivem cerca de 80 monges. Ao lado, está monastério SERA, o mais famoso pelo seu método de ensino. Todas as tardes, eles tem um animado debate no pátio do mosteiro, onde ali os monges são sabatinados pelos seus superiores em um ritual bem extravagante, uma experiência única! Dentro do complexo há também um centro de impressão, onde textos da sutra ainda são impressos à mão em papel tradicional do Tibet.

 

 

Vale conhecer também a região de YAMDROK LAKE com seus 4.488 metros de altitude. Há quem passe mal, eu passei super bem , sem problemas. É uma viagem por estradas sinuosas, em torno de duas horas para ir e outras duas para o retorno, porém de uma beleza ímpar. Os lagos são tão azuis que chegam a doer os olhos.

 

 

Outra visita imperdível é o Templo JOKHANG, no coração de Lhasa, um dos patrimônios culturais da humanidade, onde está preservada uma estátua da imagem de Sakyamuni ( Buda) dourada, que a comunidade budista considera como um tesouro raro. A imagem foi presente da segunda esposa do primeiro rei budista do Tibet, Songtsan Gampo.

 

 

Ao redor do JOKHANG é onde tem o melhor comércio da cidade, o BARKHUR, cheio de lojas incríveis de artesanato local. A ordem é pechinchar muito e passar horas garimpando peças lindas, jóias em turquesa( a pedra oficial do país, em referência ao azul dos lagos tibetanos), tecidos, artesanato e uma infinidade de produtos exóticos e únicos. Queria poder trazer um container de compras!

 

 

Também é incrível a experiência de observar as pessoas percorrendo as KORAS em prostração, movimento de oração, onde os gestos são muito peculiares. Em Lhasa, existem dois circuitos importantes para os KORAS: ao redor do POTALA e no BARKHUR, ao redor do JOKHANG. É de impressionar, pessoas com idade próxima aos 100 anos fazendo suas KORAS diárias.

 

 

O Mosteiro GARDEN é um dos três grandes mosteiros universitários Gelukpa do Tibet. Está localizado no alto da montanha Wangbur e é muito bonito!

 

 

Pouco explorado pelos guias locais por questões políticas, o NORBULINGKA, Palácio de VERÃO do último Dalai Lama também é visita obrigatória para quem visita Lhasa. Ali foi o lugar onde o atual Dalai Lama estava no momento em que fugiu para a Índia. Até o relógio na parede está parado até hoje com o horário da fuga. Emocionante e imperdível com seus belos jardins.

 

 

A gastronomia no Tibet é interessante, uma mistura de China e Índia. Destaque para o MOMO, uma espécie de dumpling muito saboroso, geralmente recheado de batata, carne de Yak (muito macia, comi em várias ocasiões) e vegetais. Noodles, arroz frito e até o famoso pão indiano NAN fazem parte da culinária local.

Em Lhasa fiquei hospedada no lindo Shangri-la, cinco estrelas com todo o serviço sensacional que a rede oferece. SPA maravilhoso e até com uma sala oxigenada para quem estiver se sentindo mal com a altitude. Nos quartos também eles oferecem oxigênio para quem quiser dormir melhor. Dois restaurantes com comida ocidental para quem não tolerar a comida local ou se já estiver viajando há mais tempo e tiver com saudades de uma comida ocidental, que foi o meu caso!

 

 

Para entrar no Tibet você precisa do visto chinês e uma autorização especial para visitar a região, já que é um território politicamente instável. Não é permitido fazer turismo autônomo no país, você tem que ir através de agências e operadores locais. Quem organizou toda a minha viagem foi a Latitudes Viagens de Conhecimento, expert na região.

Fotos Flavia Pires, todos os direitos reservados.