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O trancedental Nepal depois do terremoto

Flavia Pires
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Solidariedade vinda dos quatro cantos do mundo através de muita ajuda humanitária foi o que vimos durante semanas nos noticiários diários após os dois terremotos que abalaram a capital do Nepal, Kathmandu, e sua periferia. Foram 7.000 vítimas e muita destruição na cidade. Aquelas imagens me doeram como se fossem pessoas muito próximas. Acredito que quando conhecemos um lugar, estreitamos fortes laços e vínculos eternos como se tudo o que vivemos ali voltasse na memória com uma força incrível.

E a minha viagem para a China e o Tibet já estava bem próxima de acontecer e programada para dar uma paradinha na volta em Kathmandu, que eu tanto gostei quando estive lá há exatos dois anos. Tomei a decisão de não mudar minha rota de volta e fazer a parada no Nepal, conforme havia planejado.

Sobrevoando o vale de Kathmandu é fácil imaginar que antigamente estivesse inundado sob águas de um enorme lago e segundo reza a lenda, Manjushri, um discípulo de Buda, alçou sua espada de sabedoria para criar um espaço entre as montanhas, drenando assim toda água deixando um vale muito fértil.

 

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Devo confessar que meu coração apertou quando o avião aterrissou e pude ver na pista aqueles aviões gigantes da Força Aérea Americana e Paquistanesa trazendo muita ajuda humanitária e alimentos.

 

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Uma mistura de ansiedade e medo. Não medo de outro terremoto (hoje em dia tenho mais medo da insegurança que vivemos no nosso país do que de um desastre da natureza), mas sim em ver o sofrimento das pessoas envolvidas nesta tragédia e em me deparar com a destruição daquelas construções seculares que há dois anos registrei absolutamente extasiada. O turismo é a principal fonte de renda do país e sem esses visitantes, como sobreviver?

O Nepal é um país pobre, situado na encosta da Cordilheira do Himalaya, no centro da Ásia, entre o Tibet (ocupado pela República popular da China) de onde eu estava vindo, e a Índia. Tem uma das maiores densidades demográficas do continente, com 184 habitantes por km quadrado e população beirando os 30 milhões de habitantes que crescem em um ritmo alarmante. Sua população é composta por 12 etnias, que convivem harmoniosamente. A agricultura emprega 90% da mão de obra, tornando o país um grande fornecedor de arroz para a região. O povo é lindo e guerreiro. A história deste país é impressionante com suas características budistas e hindus que se mesclam em um sincretismo único.

Logo ao desembarque, o guia Jeevan Khadka nos aguardava com sorriso imenso no rosto junto com a simpatia e ternura dos nepaleses. Comentei em seguida o quanto estava feliz em poder voltar ao país que tanto havia adorado e de alguma forma poder contribuir um pouquinho que fosse com o turismo na cidade e ainda se estava tudo bem com a família dele. Visivelmente emocionado, ele me respondeu que eu era a primeira turista que ele atendia após os terremotos e que a família dele havia perdido tudo nos abalos, mas que todos estavam vivos, e isso era o que realmente importava.

O choque cultural é grande na saída do aeroporto a caminho do hotel. Ruas abarrotadas de gente e transporte público com lotação acima do aceitável. O verdadeiro “corpo a corpo” e as diferenças culturais me fascinam cada vez mais na Ásia, visitada por mim 9 vezes. Sair da zona de conforto e entrar de cabeça em uma nova cultura é o que alimenta minha alma. Pude observar através do trânsito caótico todas as praças e até um campo de golf ocupadas por barracas com muitas pessoas vivendo ali. Aparentemente tudo muito organizado. Jeevan me contou que nem todas estas pessoas perderam tudo, mas que suas casas ainda de pé estavam sendo analisadas por calculistas vendo o real risco de desabamento após os abalos e que, aos poucos, estas famílias voltarão aos seus lares em segurança.

O trajeto entre o aeroporto e o hotel é relativamente curto, cerca de 15 minutos e meus olhos nem piscavam, não querendo perder nada. Me hospedei no mesmo hotel, o Dwarika’s, considerado o melhor da cidade. Sua arquitetura é de uma beleza única. O gerente do hotel nos recebeu calorosamente e todos os funcionários também não escondiam o prazer em nos receber. Naquele momento, todos os meus medos desapareceram. Me senti em casa, acolhida e feliz em poder contribuir ainda que fosse uma migalha para o turismo na cidade.

 

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O Nepal é o único reino hindu do mundo com 90% da população hindu e somente 10% budista. Apesar disso é difícil, principalmente na região do Vale de Kathmandu, definir quem é budista e quem é hindu. Durante séculos, diferentes influências foram moldando a cultura nepalesa e houve um grande sincretismo religioso. É muito comum em Kathmandu encontrar templos hindus com influências arquitetônicas budistas ou budistas frequentando templos hindus.

 

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O que eu mais admiro nessa cultura é a bonita relação com a morte. Para os hindus, a terra é um rito de passagem, sua missão foi cumprida aqui e agora é hora de viver outra experiência, não importa a idade que vc tenha. Por isso fiz questão de ir mais uma vez ver a cremação dos corpos em Pashupatinath, templo dedicado ao Lord Shiva, aqui em sua manifestação como Pashupati. É o mais importante templo hindu do Nepal. Situado às margens do Sagrado Rio Bagmati,é o principal local de cremações do Nepal. Quando estive em Varanasi na Índia, as cremações às margens do Rio Ganges não podem ser filmadas, nem fotografadas e não se pode acompanhar de perto a cerimônia. Aqui tive a oportunidade de ver a cerimônia completa em todo seu ritual e pude registrar cada detalhe. Momentos de profunda reflexão sobre as diversas formas de encarar a morte. Essas são algumas das experiências e vivências que somente viajando até o outro lado do mundo para entender, aprender e respeitar as tantas formas de viver diferentes da nossa.

 

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O Thamel, importante área no centro de Kathmandu ficou intacto, assim como o Swayabunath (Templo dos Macacos com cerca de 2 mil anos), a Praça Boudhnath, o bairro onde se estabeleceram os tibetanos que fugiram da invasão chinesa nos anos 50 , onde se encontra a maior estupa budista fora do Tibet e onde se fazem excelentes compras nas lojinhas ao redor dela. O artesanato nepalês é de uma beleza única: bijouterias, muita turquesa e coral (pedras do budismo), estátuas, tecidos, objetos e pinturas fazem daqui um grande centro de compras e atraem comerciantes do mundo todo. As lojas estavam vazias, lotadas de mercadoria e à espera dos turistas. Pude constatar que as áreas afetadas foram a periferia da cidade e já estavam em plena reconstrução. O centro, os principais pontos turísticos, hotéis, lojas e restaurantes ficaram preservados. Com todos que conversei, um imenso pedido de ajuda para trazer de volta os animados turistas que alegram a cidade e enchem de esperança o coração deste povo tão generoso, espiritualizado e feliz.

Venham conhecer o Nepal!

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