Curiosidades sobre o Irã, um mundo de descobertas

Por: Flávia Pires 5 novembro, 2017

O primeiro ponto quando me questionaram o porquê de conhecer o Irã, o medo da maioria foi a questão da segurança. As pessoas tem na cabeça, principalmente as da minha geração pra cima, que o país é muito inseguro. Talvez pelo registro da Guerra Irã -Iraque, das loucuras do ex-presidente e ditador Ahmadinejad e do atual Programa Nuclear. Vou tentar esclarecer alguns “mitos” e pontos importantes que eu aprendi e vivenciei durante meus 15 dias no país:

A GUERRA IRÃ-IRAQUE Em 1980 o Irã entrou em guerra com o Iraque, cujo governo havia ocupado áreas de litígio às margens do Chatt El Arab. O conflito causou grande destruição em ambos os países e teve duração de oito anos, encerrando em 1988 com 500 mil vítimas de cada país. As fronteiras que foram objeto de disputa, permaneceram inalteradas. O Irã faz fronteira com a Turquia, Azerbaijão, Armênia, Iraque, Paquistão, Afeganistão e Turcomenistão, vizinhos um tanto tumultuados, talvez daí venha o sentimento de insegurança em visitar o país.

CRIMINALIDADE NO PAÍS É baixíssima, o povo iraniano é decididamente da paz. A taxa de analfabetismo entre pessoas de 10 a 49 anos é mínima, apenas 7%. Uma população extremamente culta com 81 milhões de habitantes. O Estado iraniano oferece educação e saúde gratuitos em todo o país. Meninos e meninas estudam em escolas separadas até a universidade.

 

O número de livrarias impressiona, e a veneração pelos poetas persas é notável! Dá pra sentir isso em todas a cidades que visitei. O transporte público é subsidiado, assim como gasolina e gás doméstico. Aposentadorias e pensões para veteranos de guerra e deficientes são oferecidas em larga escala. Me senti segura o tempo todo, saí pra jantar à noite com uma amiga, andei por todos os mercados das cidades sem problema algum, inclusive usando jóias e relógio. Aliás, achei os homens muito menos invasivos e muito respeitosos do que em países como a Turquia ou o Marrocos. Nos mercados, eles não se aproximam e nem ficam te oferecendo produtos com insistência. Mas os iranianos se queixam com frequência do empobrecimento do país após o segundo mandato de Ahmadinejad por conta das sanções e estratégias políticas equivocadas.

 

PROGRAMA NUCLEAR O país é assombrado pela questão nuclear. Mas como não ter bomba atômica com estes vizinhos “da pesada”? Não sou nenhuma expert no assunto, mas tenho entendido que o país não tem pretensão nenhuma em fazer parte deste programa a não ser para se equiparar aos seus vizinhos. “Se todos tem, eu vou ter também!” uma espécie de “apoio moral”.

ETNIAS NO ORIENTE MÉDIO Costumamos fazer uma confusão danada com os povos do Oriente Médio, não é verdade? Um erro bastante comum que cometemos é um motivo de grande ofensa para os persas. A confusão surge pelo fato de árabes e persas seguirem a mesma religião, de grande parte dos países árabes estar no Oriente Médio e pelo nome Irã e Iraque ter uma sonoridade parecida. Os iranianos falam farsi, são originários da raça ariana, possuem uma cultura milenar de 2.500 anos, possuem famosos filósofos e poetas, tem uma culinária bem diferente de seus vizinhos. E eles detestam serem confundidos com árabes ou turcos! Jamais se confunda com isso, eles ficam uma fera!

 

ROTA DA SEDA Tornou-se o maior eixo comercial e cultural de todos os tempos, além de sinônimo de exotismo, aventura, viagens a terras distantes. A seda era objeto de desejo dos ricos e poderosos da Europa e do mundo árabe e eram os chineses que dominavam todo o segredo dessa fabricação. O platô iraniano controlou por muitos anos efetivamente a via terrestre da Roda da Seda no segmento que derivava para a direção norte e para as margens do Mar Cáspio. Mas não foram apenas as rotas comerciais terrestres que interligavam a antiga Pérsia com o extremo Oriente que podiam ser responsabilizadas pela prosperidade das cidades persas como Isfahan, Yazd e Shiraz. Por sua posição estratégica, a Pérsia foi beneficiada pelas rotas comerciais marítimas que circulavam pelo Oceano Índico e o Golfo Pérsico, conexão mais próxima entre a Rota da Seda e os grandes mares.

 

TAPETES PERSAS Não tem como não associar de primeira, o Irã com os tapetes persas. Eles foram e são até hoje, a expressão máxima e absoluta da cultura persa. Foram usados como camas em áreas remotas do país e por tribos nômades por séculos  e grande objeto do desejo em casa de milionários mundo afora, chegando a custar milhares de dólares. Os tapetes persas despertam desejo e cobiça há milênios por todo o planeta. A fama universal do tapete persa deve-se basicamente à delicadeza do nó, à novidade no estilo e padronagem dependendo da região onde ele foi feito, na durabilidade por ter alta qualidade e na coordenação das cores utilizadas. Os tapetes podem ser feitos de seda ou lã (de camelo, cabra ou ovelha). São verdadeira obras de arte que como pinturas e esculturas, se valorizam com o tempo. Um verdadeiro tapete deve ser passado de geração em geração e cada peça conta uma história, detalhes curiosos e minuciosos quase imperceptíveis aos olhos leigos. O Irã ainda é um grande líder mundial no setor, a maior fonte de renda do país depois dos hidrocarbonetos.

 

CAVIAR IRANIANO Banhado ao norte pelo Mar Cáspio, famoso pela qualidade de seus esturjões, o Irã é um grande produtor da iguaria e exporta caviar para o mundo todo. Atualmente estes esturjões também são reproduzidos em cativeiros com a mesma qualidade e condições do Cáspio, custando cerca de 30% mais barato. Você só pode sair do país com 200 gramas ( quatro vidrinhos de 50 gramas cada ) e custam cerca de U$180,00 por 50 gramas. Você encontra fácil nos bons hotéis e também no aeroporto e já vem em embalagem própria para transportar ( com duração de 24 horas).

 

OS BAZARES IRANIANOS Situados nos principais centros antigos das cidades, os bazares iranianos são famosos há séculos. São negócios de famílias com riquezas acumuladas ao longo de gerações por diversas famílias da região, com importante papel social e político na história do país. Hoje o setor passa por dificuldades, já que a sanções e o isolamento do país pós revolução de 1979, dificultaram a importação de bens de consumo e até as exportações de produtos iranianos, entre eles, os famosos tapetes persas.

 

SUPERTIÇÃO Os iranianos são muito supersticiosos! Várias lendas e “mandingas” são comumente vistas por lá! Mau olhado é uma das principais, eles também usam o talismã Mão de Fátima ( Hamsá) e os famosos Olhos Turcos (nazais).

 

ZOROATRISMO Nasceu na Pérsia e foi a primeira fé a pregar a existência de um Deus único. Ciro, Dario e Xerxes foram líderes devotos fervorosos do Zoroatrismo. São basicamente quatro pilares na religião:

  • Deus único, Ahura Mazda, com atributos de onisciência e onipresença.
  • Correspondência entre o macro e o microcosmo.
  • Igualdade espiritual entre todos os seres humanos.
  • Ética da verdade, forma ideal da existência caracterizada pela relação harmoniosa entre todas as coisas.

Hoje a fé dominante no país é o islã xiita, considerada religião de Estado após  revolução de 1979. Os mais devotos rezam cinco vezes ao dia, jejuam no mês sagrado do Ramadã e fazem peregrinação sagrada a Meca. Não fumam e não bebem álcool. As mulheres religiosas usam o xador, tipo de véus que cobre o corpo todo e que significa “barraca”em farsi. Mas há alguns segmentos mais liberais que dispensa o xador e usam o Hijab, um lenço menor que cobre os cabelos e pescoço, como este que estou usando e não necessariamente precisa ser preto. Aliás, a maioria das mulheres por todo o Irã usam Hijab, as mais velhas é que ainda usam o xador. O uso do véu incomoda muito as mulheres. A nossa guia me contou que quando vai a Europa, abre mão do uso do véu. As mesquitas estão por toda a parte no país e são de uma beleza única. Mas acreditem que a fé islâmica por aqui vem decaindo bastante nos últimos anos. As mesquitas hoje em dia são frequentadas pelos mais velhos, os jovens não tem frequentado os rituais muçulmanos. Totalmente ao contrário do que imaginei. Estava certa de que o país era rígido e muito duro nas questões religiosas. Você percebe isso claramente conversando com os locais.

 

A GEOGRAFIA DO IRÃ Existem muitas montanhas em todo o Irã. Os Montes Albors são muito conhecidos ao norte, delimitando o Mar Cáspio e onde hoje existem os melhores centros de esqui do país. O Monte Zagros a oeste, serviram historicamente como uma fronteira natural entre o Irã e as planícies da Mesopotâmia ( hoje onde fica o Iraque). E o Hindu Kush, a leste do país, que corresponde ao desenvolvimento ocidental do Himalaya, e é o elemento de relevo que define o Afeganistão. Em todo esse território montanhoso, existem três placas tectônica: arábica, eurasiana e indiana. O atrito nessa junção das placas, transforma o país em um dos recordistas mundiais em abalos sísmicos. Não se passa nem um dia sem que a terra trema em algum ponto do país, pois várias falhas geológicas cortam o território iraniano. Em 2003 houve um dos maiores desastres da história do país e 31.000 pessoas morreram na cidade histórica de Bam.

 

AEROPORTO DE MEHRABAD Se você for fazer voos internos pelo país, provavelmente vai voar de Teerã saindo do aeroporto de Mehrabad, é o famoso aeroporto que aparece no filme Argo, sobre a fuga dos americanos no sequestro da Embaixada Americana em 1979. Esse filme é imperdível para quem for visitar o país. Na matéria anterior a esta eu menciono livros e filmes para leitura obrigatória antes de embarcar!

 

CULINÁRIA PERSA Os pratos da culinária persa são totalmente diferentes da árabe. Cordeiro, frango e vaca estão presentes, assim como fartura de verduras e legumes ultra frescos. O Kebab de origem turca, é paixão nacional. Todos os pratos levam açafrão com sabores bem marcantes. Ervas frescas e especiarias também são muito utilizados. A romã também tem seu posto de destaque nos pratos persas. O iogurte aparece em abundância. No geral, eu comi muito bem em todas as cidades. Mas senti falta do vinho, o álcool é terminantemente proibido no país, principalmente na cidade de Shiraz, terra da uva homônima.

 

O ÚLTIMO XÁ Mohammad Reza Pahlavi (1919-1980) chegou ao poder durante a Segunda Guerra Mundial depois que uma invasão anglo-soviética forçou a abdicação de seu pai, Reza Xá .O Irã do tempo de Pahlavi, era um dos países do Oriente Médio mais sintonizados com o Ocidente. A elite iraniana desfilava sofisticação e elegância na Europa e Estados Unidos. Em 1963 houve uma campanha de modernização que incluiu uma grande reforma agrária e o direito de voto às mulheres. O Xá admirava a força visionária do vizinho Ataturk, que fez a Turquia ressurgir com força após na Primeira Guerra Mundial e quis cópia-lo. Foi seu pai, Pahlavi (1877-1944), que mudou o nome do país de Pérsia para Irã em 1935. Após a Revolução em 1979 e a chegada dos Aiatolás ao poder, o país fechou-se e virou sinônimo de fanatismo, repressão e intolerância. Mohammad morreu no exílio no Egito em 1980 em decorrência de um câncer. Era casado com Farah Diba.

 

FARAH DIBA Foi a terceira esposa de Mohammad Reza Pahlavi e a última imperatriz da Pérsia. Nasceu em Teerã e foi educada em Paris. Era refinadíssima e grande responsável por levar à opulência e extravagâncias ao seu país. Juntos, tiveram 4 filhos, sendo que dois já falecidos. Acompanhou seu marido no exílio no Egito até sua morte em 1980 e hoje mora entre Paris e Estados Unidos. Farah foi responsável pela famosa festa nas ruínas em Persépolis em 1971, considerada a festa mais cara da história que se tem notícia, onde cerca de 500 convidados e representantes de 70 países viveram um verdadeiro conto de fadas. Era a comemoração da fundação da Pérsia há 2500 anos. Cerca de 50 tendas foram armadas no deserto com toda a infra estrutura luxuosa com 20 empregados para cada 5 convidados. Os vinhos eram Chateau Lafite Rothschild 1945. Foram consumidas 2500 garrafas do melhor champagne francês da época, os conhaques eram Vintage 1860. A mesa que servia o buffet tinha 70 metros de comprimento e a toalha levou cerca de seis meses para ser bordada por 125 artesãs. Foram gastos 1 tonelada do melhor caviar iraniano e pavões imperiais foram servidos sem a menor parcimônia. Dizem que a mais bonita da noite era Grace Kelly, então princesa de Mônaco. A festa custou U$650 milhões da época…O casal era conhecido por suas extravagâncias que com o tempo foram estafando o povo, culminando na Revolução de 1979, depondo o Xá e o enviando para o exílio. Hoje Farah Diba vive entre os EUA e Paris e escreveu um livro sobre as memórias com o Xá: An Enduring Love: My life with the Shah- A Memoir. No YouTube você consegue ver vídeos incríveis desta festa.

 

AIATOLÁ KHOMEINI ( 1902-1989 ) Foi o primeiro líder mundialmente associado ao extremismo islâmico e passou a vida defendendo uma interpretação literal e ultraconservadora do alcorão. Assumiu o governo do país logo após a Revolução de 1979 e governou o país até um ano depois do fim da Guerra Irã-Iraque (1989). Aiatolá significa perito em religião/direito. Foi ele o responsável por implantar a Sharia, ou Lei Islâmica, adotada como manda o Corão: as religiões existentes no país tinham seus próprios tribunais, governados por suas próprias leis. O Aiatolá fechou o país em um regime conservador extremo. Toda aquela liberdade dos tempos do Xá e referências Ocidentais acabaram de vez. Defendia que as meninas estavam aptas a casar a partir dos 9 anos e defendia a pena de morte para quem abandonasse o islã. O Aiatolá considerava o Ocidente uma fonte de todos os males do mundo. Em plena Guerra Fria, o aiatolá travou ódio aos EUA e Israel, começando ali uma série de problemas entre estes países. O Hezbollah foi criado por ele junto aos libaneses para combater Israel. Álcool, música e cinema foram banidos do país. O véu tornou-se de uso obrigatório para as mulheres, que também perderam o direito de andar de bicicleta e cantar. Homens nunca mais puderam andar na rua usando bermudas.

 

AS MULHERES IRANIANAS  Usam véu obrigatoriamente nas escolas a partir dos 7 anos. Estão sempre super produzidas com maquiagem, batom forte, olhos bem marcados, unhas em tons fortes e são muito vaidosas! Por conta do uso contínuo do véu, muitas tem problemas de calvície precoce. Usam tinta de cabelo ruivas e até loiras! Reparei que a maioria delas já deixa o véu (hijab) escorregar de propósito, deixando os cabelos no topo da cabeça bem à mostra. Elas não s casam mais virgens!  Pílulas anticoncepcionais são vendidas livremente nas farmácias sem prescrição médica. E se tem um namorado ainda nos moldes mais antigos, fazem facilmente cirurgia íntima para reverter a virgindade. Teerã é um dos grandes centros e referência em cirurgia estética no Oriente Médio! É impressionante o número de mulheres com esparadrapo no nariz pós-cirúrgico que encontrei por todo o país! Uso de Botox em quantidades absurdas. Silicone utilizado também em larga escala. Ao contrário da Arábia Saudita, no Irã as mulheres dirigem, estudam, ocupam altos cargos nas empresas, podem votar, trabalhar livremente e serem eleitas a cargos políticos. Eu tinha uma visão totalmente deturpada quanto a isso. Fiquei muito impressionada com tudo que aprendi nestes 15 dias.

 

PARQUES E ÁREAS VERDES NAS CIDADES Chamam a atenção de quem visita o Irã, a quantidade de parques e praças com muito verde, fontes de água, lagos e jardins floridos por todos os lados. E sempre cheio de gente, fazendo seus picnics ao ar livre, jovens flertando e uma vida ao ar livre com muita segurança de dar inveja a qualquer ocidental. Muito bem cuidados, limpos e organizados os jardins persas são uma instituição que todos apreciam e cuidam. Talvez pela falta de bares, festas e discotecas, os jovens estão ali se divertindo e passeando. É o programa preferido em todas as idades. Uma sensação boa passear por ali, há um resgate de comportamento que para nós no ocidente, anda esquecido…pessoas conversando, se distraindo, contemplando os elementos da natureza ao invés de estar conectados ao celular em uma vida louca, onde somos regidos pela falta de tempo. Ali o tempo é respeitado, alimentado e vivido. Levarei as melhores lembranças destes passeios nos parques.

 

O CINEMA IRANIANO Prestigiado, elogiado e reconhecido no mundo inteiro, é a paixão nacional do país. Muitas salas de cinema estão por todos os cantos e motivo de muito orgulho. Fiquei com vontade de assistir um filme in loco, mas eles são transmitidos somente em farsi. Alguns títulos que gostei bastante foram: A Maçã, A Separação e Filhos do Paraíso.

 

Quem organizou minha viagem foi a Latitudes Viagens de Conhecimento e quem organizada a maioria das minha viagens com uma expertise única em anos de mercado de viagens diferenciadas.  Este roteiro entrou para o calendário oficial da agência e você também pode organizar caso queira, um grupo privativo, um roteiro sob medida exclusivo pra você. As melhores épocas do ano para visitar o país é em abril/maio e outubro/novembro.

Bibliografia: Os Iranianos, Samy Adghirni e Wikipedia.

 

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Fotos Flavia Pires, todos os direitos reservados e divulgação.